Belo Jardim seria mais uma cidade comum no interior de Pernambuco se não fosse por um detalhe: é conhecida como a cidade das marocas. Para quem não sabe, maroca significa mexeriqueira, fuxiqueira, fofoqueira. O termo nasceu da novela Redenção, exibida pela extinta TV Excelsior na década de 60, e que tinha como um dos cenários a cidade das marocas. Até hoje é a novela mais longa da televisão brasileira, com dois anos de duração.
Uma cena comum de Belo Jardim é encontrar duas senhoras apoiadas nas janelas de suas casas. Sob o olhar atento delas, as pessoas passam. "O que eu mais vejo aqui é mulher feia passando", brinca uma delas. A fofoca já faz parte do cotidiano dessas pessoas de tal forma, que as chamadas marocas colocam almofadas debaixo do braço. "Para não machucar o cotovelo, não arranhar. Muitas vezes chego aqui de manhã e saio às 10 ou 11 horas da noite", diz a outra.
Mas entre tantas marocas, quem é a mais? A resposta está na ponta da língua de todos os moradores: Dona Maria José. "Não me incomodo, eu gosto de ser fofoqueira. Passou pela minha língua, morreu", se diverte. Segundo Dona Maria, trata-se de uma técnica, debruçar na janela, observar o movimento, e logo começam os comentários acerca da vida alheia. Para a senhora de 91 anos, é uma fofoca construtiva, "nada que faça mal".
As pessoas fazem jus ao nome que a cidade tem. Em Belo Jardim existe até carta-fofoca, quem escreve é Dona Dulce. "Querida irmã e amiga Nicéia, cuidado que Damiana está namorando muito e não quer casar mais nunca", diz um dos bilhetes secretos. "É uma fofoca alerta, de vez em quando pode modificar o comportamento das pessoas", afirma Dona Dulce.
Em uma cidade com essa, a principal festa só podia ser uma: Festa das Marocas. Tradição há 37 anos no calendário de eventos do estado de Pernambuco, a festa foi idealizada por Dona Maria José e mais duas amigas. No início, não passava de uma brincadeira. O tempo passou, e hoje atrai pessoas de todos os lugares.
Na época de festa, Dona Maria José vira, simbolicamente, a prefeita da cidade. Para José Mendonça Bezerra, o prefeito, tê-la na chefia da prefeitura seria garantia de conversa. "A mulher já conversa mais do que o homem, as de Belo Jardim então, muito mais!"
Nessa história, nem os músicos da festa ficam de fora. "A gente presta atenção no que toca e falamos ao mesmo tempo, o ouvido tem que estar atento", diz um deles. O som do baile não poderia ser outro, "aonde tem maroca, tem que ter fofoca".
Reportagem: Renata Alves ( Rede Record )





